quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Entre custos e benefícios cabem prioridades sempre discutíveis

Por Bettina Barros, de São Paulo
18/09/2008
Fonte: Valoronline



Líderes de 77 países em desenvolvimento reunidos em Acra, capital de Gana, apresentaram a fatura aos colegas ricos por sua responsabilidade no aquecimento do planeta: Estados Unidos, Europa e outras nações industrializadas deveriam pagar até 1% de seu PIB para financiar mecanismos de redução de gases de efeito estufa na Ásia, América Latina e África.


O encontro foi promovido pelas Nações Unidas como parte de uma série de reuniões, na tentativa de esquadrinhar um futuro para o Protocolo de Kyoto, cuja primeira fase de compromisso expira em 2012. Se estivesse presente, o cientista político e economista dinamarquês Bjorn Lomborg certamente balançaria a cabeça, desanimado.


Tomando-se como base os dados de 2007, 1% do PIB dos EUA representaria US$ 138 bilhões. Nos 27 países que compõem a União Européia, US$ 168 bilhões. No Japão, US$ 44 bilhões. E tudo isso, unicamente para reduzir as emissões de dióxido de carbono (CO2), o principal gás-estufa.


A tese de Lomborg é simples: canalizar bilhões de dólares apenas para o combate do aquecimento global é erro grave por que o custo político e econômico é alto e os benefícios reais modestos. Em "Cool it - Muita Calma nessa Hora!", Lomborg dá continuidade à argumentação de "O Ambientalista Cético", livro lançado em 1998 que projetou seu nome na cena internacional. "Afirmações passionais fazem com que nos concentremos em soluções erradas", diz Lomborg - cujos raciocínios também não escapam a críticas de outros analistas de questões ambientais, que vêem manobras retóricas e fundamentação estatística algo tendenciosa em várias de suas alegações.


Contudo, é preciso dizer, as idéias deste professor-adjunto da Faculdade de Administração de Copenhague, eleito uma das cem personalidades mais influentes pela revista "Time", não se confundem com as daqueles que, simplesmente, negam a gravidade da elevação das temperaturas e a participação do homem nesse processo. Seu ceticismo é de outra ordem.


Sua maior crítica recai justamente sobre o acordo internacional de Kyoto, costurado a duras penas para combater a mudança climática. Ao longo de 200 páginas, Lomborg explica por que acredita ser perda de tempo e dinheiro apostar na redução de gases quando o planeta sofre com questões mais graves. "Precisamos lembrar que nosso objetivo final não é o aquecimento global em si, mas melhorar a qualidade de vida e o ambiente", afirma.


Circulam em torno dessa proposta ampla os debates promovidos pelo Copenhagen Consensus Center, criado por iniciativa de Lomborg para discutir o que devam ser, na opinião de economistas e outros especialistas, as prioridades globais para aplicação de recursos, de modo a se promover o máximo de benefícios à humanidade. A consulta também foi feita a 80 universitários destacados - potenciais líderes -, 70% deles de países em desenvolvimento. As questões mais relevantes, na visão dos dois grupos, apresentadas em seminário recente, foram as mesmas: o combate à desnutrição e às doenças apareceu no topo da lista, seguido por saneamento, fornecimento de água e migração. O clima ficou em último lugar.


Calculou-se, então, o valor em dólares de diferentes soluções para os problemas observados. Evitar o vírus HIV revelou-se o melhor investimento que as sociedades podem fazer: cada dólar gasto em preservativos e informações resultaria em cerca de US$ 40 em benefícios (menos mortos, menos doentes, menos caos social). "Por R$ 27 milhões podemos salvar 28 milhões de vidas nos próximos anos", afirma Lomborg. Para a desnutrição, que acomete quase 4 milhões de indivíduos por ano, o investimento de US$ 12 bilhões reduziria a mortalidade pela metade. Aportes de US$ 13 bilhões também reduziriam à metade a incidência de malária no mundo.
No extremo oposto, o consenso de economistas situa o Protocolo de Kyoto como uma oportunidade ruim de empregar o dinheiro. É o que Lomborg chama de "colapso de proporções".

"Para cada dólar gasto, produziríamos menos que o equivalente a US$ 1 em benefícios sociais para o mundo. Temos de nos perguntar o que desejamos fazer primeiro."


Lomborg afirma que mesmo que os Estados Unidos aderissem ao tratado internacional (o que não há perspectiva de acontecer, pelo menos nos moldes atuais de Kyoto), a desaceleração das emissões de CO2 seria extremamente pequena ao fim de um século. Se todos honrassem compromissos, diz ele, o aumento de 2,6° C da temperatura terrestre previsto pela ONU seria adiado só em cinco anos, de 2100 para 2105.


Em vez disso, Lomborg propõe investimentos em pesquisa e desenvolvimento, que tornariam as sociedades mais preparadas para se defender no futuro. "Deveríamos nos comprometer a gastar 0,05% do PIB com pesquisa e desenvolvimento de tecnologias energéticas de não-emissão de carbono e passar ao largo de um Kyoto 2, que imporia padrões ainda mais rígidos a custo alto com benefícios modestos e compromissos políticos frágeis", dispara. "Essa abordagem custaria cerca de US$ 25 bilhões anuais". Fica aberta a polêmica.


"Cool It - Muita Calma nesta Hora!" - Bjorn Lomborg. Trad. de Regina Lyra.
Editora Campus/Elsevier. R$ 59,90

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