quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Cientistas pedem redução de 80% na emissão de gases

Daniel Rittner, de Brasília
30/10/2008
Fonte: Valoronline


Desenhando um cenário desolador com o atual ritmo de aquecimento global, que levará epidemias de dengue ao Rio Grande do Sul e expulsará o cultivo de café do Brasil para a Argentina, um grupo de cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) lançou um apelo pela redução de 80% nas emissões de gases do efeito estufa. Às vésperas do início efetivo das negociações para um tratado pós-2012 (quando termina o primeiro Protocolo de Kyoto), na conferência internacional prevista para dezembro, eles deixaram claro que o nível do esforço e a pressa serão decisivos no tamanho dos estragos.


Nos cálculos de Martin Perry, professor do Centro de Estudos Ambientais do Imperial College de Londres e coordenador do grupo de trabalho 2 do IPCC, se o mundo conseguir implementar uma redução anual de 6% em suas emissões já a partir de 2015, será possível limitar o aquecimento do planeta em 1,4°C até 2100. Isso é suficiente para jogar mais 250 milhões de pessoas na África em situação de déficit hídrico, comprometer a sobrevivência de espécies tropicais e romper irreparavelmente geleiras na Groenlândia. Mas os efeitos podem ser muito piores se, em vez disso, o ritmo de corte for de 1% ao ano e começar somente em 2035. Nesse caso, o aquecimento será de 3,4° até 2100 - capaz de redesenhar totalmente o litoral dos cinco continentes, eliminar mais de 40% das espécies amazônicas e elevar em 40% as regiões áridas da África.


"Cada dez anos de atraso elevam a temperatura global em 0,5°C (em 2100)", afirmou o cientista britânico. Para ele, os Estados Unidos têm um papel-chave e ambos os candidatos à presidência sinalizam preocupação com o assunto. Perry citou o bom exemplo do Reino Unido, que acaba de aprovar uma Lei de Mudanças Climáticas com possível corte de 80% das emissões, e alerta para a importância de manter o combate ao aquecimento global como prioridade em tempos de crise internacional. "As lideranças políticas vão ter outras prioridades, e esse é o problema", aflige-se o cientista. "Em recessões, as pessoas começam a pensar mais no seu padrão de vida, e não tanto em qualidade de vida."


O pesquisador Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), delineou um quadro grave para o Brasil e a América do Sul. Uma das maiores preocupações é com o aumento de doenças tipicamente tropicais, com vetores que se desenvolvem em clima acima de 22°C.


Nobre listou a dengue, a esquistossomose e a leptospirose como endemias com potencial de crescimento. No caso da dengue, disse que "toda a região (América do Sul) ficará exposta à transmissão". Em 30 anos, a expectativa é que grandes endemias cheguem a Porto Alegre; em 50 anos, a Montevidéu; em 70 anos, a Buenos Aires. No cerrado, que deverá ficar confinado ao sul do Mato Grosso do Sul, 40% das espécies vegetais desaparecerão em 2100. A Mata Atlântica será reduzida em pelo menos 30%, no cenário otimista, e em até 65%, no pessimista. "O clima vai expulsando os biomas mais ricos do cerrado, da Amazônia, da Mata Atlântica. Eles ficarão concentrados no Sudeste", disse Nobre.


A agricultura pode passar por transformações radicais, segundo o pesquisador. "Com o aquecimento global, em 100 anos, a Argentina será exportadora de café para o Brasil. Em 30 anos, o Estado de Santa Catarina não cultivará mais maçãs", projetou.


O pesquisador afirmou que os chamados "veranicos" - ondas de calor durante o inverno - e as secas serão mais prolongadas. Na terça-feira, Brasília registrou a temperatura mais elevada de sua história: 35,8°C, com umidade relativa do ar em 13%. Nobre destacou ainda que o potencial de geração de energia eólica, de 60 mil megawatts (MW) hoje, diminuirá devido à queda da velocidade do vento com as mudanças climáticas em curso.

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