De São Paulo
13/11/2008
Fonte: Valoronline
Como estratégia para convencer quem ainda resiste a entender o que vem pela frente com o aquecimento global, o representante do governo britânico exibe um mapa do clima da Europa elaborado pela Escola Nacional de Meteorologia francesa. Em 2071, indicam os franceses, o mapa geopolítico europeu poderá ser o mesmo de hoje, diz Alex Nickson, a não ser por alguns detalhes estranhos produzidos pela mudança climática: Berlim está colocada no Marrocos, Londres foi parar em Portugal, Paris e Estocolmo surgem em território espanhol. O recado é explícito: a temperatura dessas cidades vai subir e é preciso se adaptar a isso.
"Dizem que será possível plantar uvas e produzir vinho no sul da Inglaterra", continua Nickson, gerente de estratégia de adaptação em mudança climática da Prefeitura de Londres, ao explicar a recém-divulgada estratégia elaborada pela administração do prefeito Boris Johnson. Essa foi a única brincadeira que ele faz durante a apresentação do plano. Nenhuma outra metrópole do mundo tem algo parecido. Desde que o plano foi lançado, há um mês, Nikson foi chamado para falar em Tóquio, Amsterdã e Paris sobre como os londrinos enfrentarão os impactos da mudança climática.
O cuidado com que a cidade de Londres está se preparando para os efeitos da inevitável mudança passa pela discussão de investir bilhões de libras em uma nova barreira de diques que segure o avanço do mar (debate suspenso no momento) ao tipo de metal a ser usado nos trilhos do metrô para que funcionem bem com o aumento da temperatura. A cada sete anos os trilhos do ultrafamoso Tube passam por manutenção e troca. Agora, a busca tem sido por uma liga que não se expanda tanto com o calor mais intenso que se espera no futuro.
"Por que adaptar?", começa Nickson. "Porque as mudanças climáticas são inevitáveis, porque não estamos sequer bem adaptados ao clima atual e porque medidas pró-ativas são muito mais baratas e mais eficazes do que atitudes reativas", prossegue, mostrando que a administração pública segue à risca a cartilha indicada no Relatório Stern.
Há dois anos, o economista Nicholas Stern aconselhou o então primeiro-ministro Tony Blair a admitir a inevitabilidade do fenômeno e a entender que a economia britânica deveria se movimentar rumo a tecnologias limpas, hábitos sustentáveis e políticas ambientalmente seguras. "Londres terá de enfrentar eventos climáticos extremos e o aumento do nível do mar. Isso significa mais cheias, mais secas e mais ondas de calor."
A capital britânica tem 7,4 milhões de habitantes, e 1,5 milhão vive em áreas sujeitas a enchentes. No mapa da vulnerabilidade que a Prefeitura de Londres prospectou há 441 escolas (14% do total existente na cidade), 10 hospitais, 46 delegacias de polícia, 20 bases do Corpo de Bombeiros, uma cadeia, 49 estações de trem, 75 estações do metrô (são 291 ao todo) e um aeroporto. "Sabemos que 15% da cidade está na linha das enchentes", diz Nickson. "Se o futuro é incerto, vamos esperar que aconteça para tomar decisões ou o melhor é agir agora?", cutuca o especialista.
As vulnerabilidades de Londres frente ao aquecimento global estão assim mapeadas: enchentes, calor forte, problemas com o abastecimento de água, problemas de qualidade do ar, ventos muito fortes. Não é de hoje que a cidade está preparada para enfrentar enchentes provocadas pela subida das marés, do Tâmisa e de seus 11 tributários, mas as cheias provocadas também pelo aumento das chuvas são um grande motivo de preocupação, diz o técnico. "Este é um grande risco. Temos 100 mil casas com padrões muito baixos de proteção", alerta.
Outro foco é treinar a população para o que fazer no caso de enchentes. Uma enquete recente indicou uma tendência preocupante: 60% das pessoas iria para o metrô no caso de ter que enfrentar uma cheia, esquecendo que as estações podem ser os primeiros lugares a inundar. "Temos que dizer às pessoas o que fazer para que não entrem em pânico."
Para enfrentar verões mais quentes e secos e, ao mesmo tempo, ter alguma defesa contra as cheias, a estratégia é o "urban greening programme", um programa que pretende tornar Londres mais verde. "Espaços mais verdes absorvem mais água", lembra ele. O governo estuda importar a tecnologia de Tóquio de asfaltar a cidade com uma liga que leva pneus triturados e que deixa a água da chuva penetrar no solo e não absorve tanto calor. Já se sabe que o centro de Londres alcança 5 graus a mais de temperatura do que a periferia. "Os arquitetos vão ter que desenhar para o futuro, não para os dias de hoje", avisa. No plano, a idéia é tornar verde até os telhados das moradias.
As altas temperaturas do verão de 2003, que provocaram a morte de milhares de europeus, são um trauma não superado. Os britânicos buscaram inspiração na Filadélfia e planejam ter um sistema constante de ambulâncias, devidamente refrigeradas, para transportar idosos a prédios públicos com ar-condicionado durante dias muito quentes. "Não estamos acostumados ao calor muito forte. Sabemos que duas a três horas em ambientes mais refrigerados podem prevenir a morte de pessoas mais sensíveis."
O Reino Unido não parece estar brincando com este assunto, embora possíveis investimentos em uma nova termoelétrica a carvão estejam suscitando muita polêmica. "Dependendo da decisão saberemos o quanto este governo leva a mudança climática realmente a sério", diz Keith Allot, chefe de mudanças climáticas do World Wildlife Fund, o WWF. Por enquanto, a administração local se arma para combater o fenômeno de todas as formas. Robin Gwynn, do Ministério das Relações Exteriores, por exemplo, tem o seguinte cargo estampado em seu cartão de visitas: enviado do Reino Unido para segurança climática em países vulneráveis.
A repórter viaja a convite do governo do Reino Unido
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
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