De Paris e Bordeaux
11/12/2008
Fonte: Valonline
A França produz 850 milhões de toneladas de lixo por ano. O que pode parecer um problema - como o de dar fim a toda essa quantidade de resíduos - surge como uma nova alternativa de produção de energia. A partir da incineração dos dejetos, o país tem ensinado ao mundo que até o que vai para a lixeira pode ter reuso garantido.
Com mais de cem incineradores de detritos urbanos caseiros, os franceses fazem aproveitamento energético a partir do lixo há 20 anos e, desde os anos 1990, qualquer usina incineradora só sai do papel se produzir energia. Com a mudança, do total de unidades transformadoras em funcionamento, 80% já apresentam exploração de energia e até 15% da força produzida vai para a rede de distribuição doméstica.
"80% da energia que sai da nossa usina é vendida para distribuidoras regionais e 20% são usados internamente", garante Sandrine Catteau, responsável pela área de relações externas do Centro de Valorização de Dejetos de Esiane, que pertence à gigante francesa Suez Environnement, dona de uma faturamento de 12 bilhões euros e operações em 12 países.
O centro, resultado de um investimento de 90 milhões de euros, usa o lixo de 420 mil habitantes de 263 comunidades francesas para produzir energia elétrica por meio da incineração. Localizado em Villers-Saint-Paul, a 62 km da capital francesa, ficou famoso pelo modelo de recuperação do lixo urbano, principalmente pelas inovações no transporte dos dejetos das residências para a usina.
Aberta em 2004, a unidade opera com 22 mil toneladas de dejetos por ano e produz o equivalente energético a 44 mil barris de petróleo anuais. "Depois de serem coletados pelos caminhões nas ruas, os resíduos chegam à usina de trem, o que elimina 220 veículos nas estradas", explica o diretor do centro, Denis Laverre.
Segundo o executivo, 98% dos detritos, a maioria plástico e papelão coletados em residências e hospitais, são valorizados. O forno da empresa funciona 24 horas e tem capacidade para queimar 10 toneladas de material por hora. A produção energética anual pode chegar a 39,2 mil megawatts/ano, o suficiente para abastecer 21,2 mil residências.
Segundo Jean-Claude Oppeneau, ex-diretor do Ministério do Meio Ambiente francês e consultor da L´Agence de l´Environnement et de Maitrise de l'Energie-Ademe (Agência do Meio Ambiente e da Matriz Energética), empresa pública de pesquisa sobre o desenvolvimento sustentável, ligada ao Ministério da Ecologia, o país tem 123 incineradores de lixo urbano caseiro e 16 unidades para eliminar dejetos industriais tóxicos. "A incineração só é permitida se gerar energia", garante.
O aproveitamento energético a partir do lixo existe na França há 20 anos e, desde os anos 1990, qualquer incinerador só pode ser construído se tiver esse fim.
Apesar da utilização do lixo como fonte de energia, a França também quer reduzir a produção de dejetos em até 5% por ano. Segundo Oppeneau, um cidadão francês produz 360 kg de lixo, anualmente. "Vamos investir em programas de educação para reduzir a compra de produtos embalados e aumentar a reciclagem dos invólucros", garante.
Em 2004, o país conseguiu recuperar 24% das embalagens jogadas no lixo. A idéia é aumentar a taxa de reciclagem para 35%, em 2012, e 40% em 2015. Com isso, deve diminuir a quantidade de resíduos que segue para os aterros em 15% até 2012. Hoje, 50% do material acumulado nos depósitos sanitários vem da agropecuária, 40% do setor da construção civil e 10% são restos industriais não tóxicos.
Na região de Bordeaux, famosa pela produção de vinhos, o Grupo Péna também trabalha com métodos de reutilização do lixo. A empresa recicla lodos urbanos, resíduos industriais e domésticos e obtém uma nova matéria-prima usada na agricultura como fertilizante, principalmente em culturas como milho, trigo e girassol.
A técnica adotada pela empresa é a compostagem, processo biológico em que microrganismos transformam madeira, folhas e papelão em um material semelhante ao solo, chamado de composto, que pode ser utilizado como adubo.
A companhia descobriu que o material, que tem a propriedade de reter a água no solo, está reduzindo o uso do líquido nas plantações da região em até 30%. Já o aumento da produção nas propriedades foi de até 2%. "É possível ver o resultado depois de três anos de utilização do produto", garante Marc Péna, presidente da empresa, que abriu uma filial em Curitiba (PR) para fechar negócios no Brasil. O composto para a agricultura foi o primeiro do gênero a ser aprovado pelo Ministério da Agricultura francês, em 2004.
Segundo o gerente de projetos da companhia, Philippe Lorthios, para produzir 800 toneladas mensais do composto, é preciso reciclar até 1,6 mil toneladas de lixo por mês. O período de fermentação, que utiliza fornos com temperaturas de até 75° C, dura uma semana. Este ano, já foram vendidas 12 mil toneladas do composto, principalmente para 200 agricultores e cooperativas da região de Bordeaux. Até o campo de golfe da cidade usa o material para adubar os gramados de competição. A tonelada do produto custa de 15 euros a 20 euros. (J.S.)
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